Dicas de corredor: Fratura por estresse ou “canelite”

canelite

 

Quando se pratica um esporte e se leva muito a sério os treinamentos, infelizmente as lesões podem acontecer. Não fazem parte do script, não foram convidadas, mas elas insistem em se fazer presentes.

 

Como qualquer distúrbio ou doença, a lesão precisa ser tratada logo, sob pena de agravar-se a ponto de inviabilizar a prática esportiva por um longo período ou no pior dos cenários para sempre.

 

O problema se torna explosivo quando você une três elementos: 1. A resistência que algumas pessoas têm, principalmente homens, em reconhecer que precisam procurar um médico; 2. O vício já em estágio avançado pela endorfina liberada pelo exercício; 3. A tendência de acreditar que nada de ruim pode acontecer conosco.

 

Pois é, não sou exceção à regra.

 

Após alguns meses de treinos diários, percorrendo distâncias cada vez maiores, comecei a sentir um desconforto na região da canela da perna esquerda. Nesta época estava rodando em torno de 130 km semanais. Leve, com o fôlego perfeito, correr 1h30 em ritmo intenso era como brincar no parque.

 

No começo era uma fisgada leve e só era sentida uns poucos minutos na fase de aquecimento.

 

Após alguns dias passou a ser uma dor moderada e que incomodava durante todo o treino. Eu continuei forçando os limites mesmo assim.

 

Em poucas semanas a dor surgia já ao apoiar o pé no chão e em práticas normais do dia a dia como caminhar para deslocar-se no trabalho, em casa, etc. E por incrível que possa parecer, continuava treinando normalmente.

 

Teimoso, forcei a canela até que em um determinado dia simplesmente não consegui correr. Dei um passo à frente e quase cai. Não encontrei apoio na perna esquerda.

 

Procurei um médico especializado em lesões esportivas. Fiz radiografia e não acusou nada. O médico então pediu uma tomografia computadorizada. Bingo! Apareceu o problema: era uma fratura por estresse na tíbia, a popular “canelite” dos corredores. A fratura por estresse é uma lesão causada por microtraumas repetidos e é uma “lesão oculta” que, na maioria das vezes, não aparece em radiografias.

 

O médico que me atendeu pediu que eu repousasse por 60 dias. Neste período eu não poderia correr em hipótese alguma. E ainda fez um prognóstico nada alentador:

 

– Após o período de repouso, você não deverá correr mais do que 5 km de forma ininterrupta, pois a sua lesão foi grave.

 

Fiquei realmente 60 dias sem correr. Foi um período difícil. Chegava do trabalho e deitava no sofá e lá ficava assistindo tv. Como morava sozinho nesta época, muitas vezes dormia por ali mesmo. Não tinha ânimo sequer para chegar até a cama. Acho que a falta da endorfina acabou por me deixar deprimido.

 

Já na questão da distância, não consegui cumprir o que o médico sugeriu. De lá para cá foram 4 maratonas e muitas rústicas em diversos percursos.

 

Mas não vou negar. De tempos em tempos a dorzinha reaparece. Como sei do que se trata, aprendi a conviver com ela e a respeitar mais os limites do meu corpo.

 

Já não corro 130 km por semana. Respeito os dias de descanso. Se a dor não desaparece fico alguns dias sem correr. Procuro perceber durante o treino se estou forçando demais os ligamentos da perna esquerda e tento corrigir a pisada.

 

Sei que terei que conviver com este problema por toda a minha vida. Foi um erro ter forçado tanto sem ter escutado os sinais do corpo. Mas agora não tem como voltar atrás.

 

Minha tíbia esquerda é lesada. E eu sou um corredor de rua.

 

SOBRE A COLUNA

“Meu nome é Edmilson Lacerda, tenho 43 anos, sou administrador de empresas e resido com minha família em Curitiba. Fui convidado para participar com uma coluna semanal neste blog, basicamente por dois motivos: gosto muito de escrever e levo muito a serio esta paixão; e também porque sou adepto da corrida de rua desde 2003. Lá se vão, portanto, doze anos de treinos diários, grandes aventuras, centenas de provas de 10 km, diversas meias-maratona e quatro maratonas, sendo duas delas internacionais. Através dos meus textos vocês viajarão pelo universo das corridas e espero transmitir minha experiência de um jeito leve e divertido, para quem sabe inspirar e até provocar uma mudança de hábito em suas vidas.”